Aldina Duarte - Contos de fados (2011)


CONTOS DE FADOS (2011)

1 Fado com Dono / 2 De Costas Voltadas / 3 À Espera da Redenção / 4 Branca, Branca / 5 No Pó que Ficou / 6 Gato Escaldado / 7 Que Amor é Este? / 8 Fogo sem Fumo / 9 Ainda mais Triste / 10 Uma Outra Nuvem / 11 Apenas o Vento / 12 Contos de Fados

Fado Com Dono

Diz quem já me ouviu cantar / Que, quando soa o meu canto / A terra inteira estremece / E os rios perdem o mar / E as pedras rolam de espanto / E até o mal se enternece / Diz quem meu fado conhece / Que ele enfeitiça e encanta / E comove, e tira o sono / É a paixão que entretece / Os fios de quem o canta / Porque o meu fado tem dono / Eu canto para procurar / Aquele que já foi meu / E a morte me arrebatou / Não desisto de cantar / Chamando o nome de Orfeu / Em todo o lado aonde vou / Mesmo que o saiba fechado / No Inferno mais profundo / E não me aguarde outra sorte / Levo comigo o meu fado / Vou até ao fim do mundo / Para morrer da sua morte

Fado con dueño

Dice que ya me oyó cantar / Que, cuando suena mi canto / La tierra entera se estremece / Y los ríos pierden el mar / Y las piedras ruedan de asombro / Y hasta el mal se enternece / Dice que conoce mi fado / Que embruja y encanta / Y conmueve, y quita el sueño / Es la pasión que entreteje / Los hilos de quien lo canta / Porque mi fado tiene dueño / Yo canto para buscar / A aquel que ya fue mío / Y la muerte me arrebató / No desisto de cantar / Clamando el nombre de Orfeo / Por cualquier lado que voy / Aunque lo sepa encerrado / En el Infierno más profundo / Y no me espere otra suerte / Llevo conmigo mi fado / Voy hasta el fin del mundo / Para morir de su muerte

De Costas Voltadas

Nunca fui o que quiseste / Fui sempre o que não gostavas / Deitei fora o que me deste / Pedi-te o que não me davas / Fui abraço de serpente / E beijo amargo limão / Fui um corpo sem ser gente / Mão que é prego noutra mão / Fui de promessa fingida / E rosto que não se encara / Dor que não chega a ser ferida / E até por isso não sara / Fui noites sem madrugadas / Desejo sem aflição / Estamos de costas voltadas / Por mais que digas que não

Vueltos de espaldas

Nunca fui lo quisiste / Fui siempre lo que no te gustaba / Eché fuera lo que me diste / Te pedí lo que no me dabas / Fui abrazo de serpiente / Y beso de margo limón / Fui un cuerpo sin ser persona / Mano que es clavo en otra mano / Fui promesa fingida / Y rostro que no se encara / Dolor que no llega a ser herida / Y hasta por eso no sana / Fui noches sin madrugadas / Deseo sin aflicción / Estamos vueltos de espaldas / Por más que digas que no

À Espera da Redenção

Fiz minha casa ao relento / De cinzas, a minha cama / Sem abrigo, como o vento / Sem destino, como a chama / Fiz as pazes com a guerra / Fiz punhais de grandes mágoas / Sem remorsos, como a terra / Sem limite, como as águas / Dei fim a tudo o que quero / Para voltar ao início / Fiz da crença, desespero / Do caminho, precipício / Fiz do gesto, a desmedida / Da perdição, o meu norte / Sem sentido, como a vida / Sem regresso, como a morte / Fiz da terra o meu tormento / Do fogo, devastação / Como as águas, como o vento / Sem rumo nem direcção / Fiz do vazio pensamento / À espera de redenção

A espera de la redención 

Hice mi casa al relente / De cenizas, mi cama / Sin abrigo, como el viento / Sin destino, como la llama / Hice las paces con la guerra / Hice puñales de grandes heridas / Sin remordimientos, como la tierra / Sin límite, como las aguas / Di fin a todo lo que quiero / Para volver al inicio / Hice de la creencia desesperación / Del camino, precipicio / Hice del gesto la desmedida / De la perdición mi norte / Sin sentido, como la vida / Sin regreso, como la muerte / Hice de la tierra mi tormento / Del fuego, devastación / Como las aguas, como el viento / Sin rumbo ni dirección / Hice del vacío pensamiento / A espera de la rendición

Branca, Branca

À deriva pela estrada / Muito branca e embalada / Na cadência dos seus passos / Vai uma sombra cansada / Tão branca, sem dizer nada / Com um fantasma nos braços / Cheia de medo e de frio / Entrou no salão vazio / Do palácio abandonado / O grande tecto ruiu / O candelabro caiu / Em chamas, o cortinado / No palácio destruído / Ficou, no vitral partido / Uma sombra a ver-se ao espelho / E no chão enegrecido / Um fantasma adormecido / Sobre o tapete vermelho / Da terra, em volta, queimada / Nasce uma rosa encarnada / Que ao passar, o vento arranca / Pelo vento desfolhada / Desfaz-se, branca, na estrada

Blanca, blanca 

A la deriva por el camino / Muy blanca y apresurada / En la cadencia de sus pasos / Va una sombra cansada / Tan blanca, sin decir nada / Con un fantasma en los brazos / Llena de miedo y de frío / Entró en el salón vacío / Del palacio abandonado / El gran techo se derrumbó / El candelabro cayó / En llamas el cortinaje / En el palacio destruido / Se quedó en la vidriera rota / Una sombra mirándose al espejo / De la tierra de alrededor, quemada / Nace una rosa encarnada / Que al pasar, el viento arranca / Por el viento deshojada / Se deshace, blanca, en el camino

No Pó Que Ficou

Já tenho a saudade gasta / Deste nosso amor amigo / Já pouco ou nada me basta / Senão um retrato antigo / E numa cómoda antiga / Um naperon de renda fina / Rendilha ainda a cantiga / De quando eu era menina / E a cama velha, lá está / Abandonada de gente / No pó que ficou por lá / Escrevi o teu nome ausente / E na moldura da vida / Onde tu cabes perfeito / Eu ganho a esperança perdida / Que deixaste no meu peito

En el polvo que quedó

Ya tengo la saudade gastada / De este amor nuestro y antiguo / Ya poco o nada me basta / Si no es un retrato antiguo / Y en una cómoda antigua / Un tapete de encaje fino / Puntillea aún la cantiga / De cuando yo era niña / Y la cama vieja está ahí / En el polvo que allí quedó / Escribí tu nombre ausente / Y en el marco de la vida / Donde tu cabes perfecto / Yo gano la esperanza perdida / Que dejaste en mi pecho

Gato Escaldado

Mais de uma vez prometeste / Levar-me de braço dado / Por Alfama a passear / Eu esperei, tu não vieste / Ficou velho e desbotado / O vestido por estrear / Vezes sem conta juraste / Dançar comigo no baile / Às portas da Mouraria / Eu fui, mas nunca chegaste / Sabem as pontas do xaile / Como chorei nesse dia / Vezes sem fim sugeriste / Ouvirmos fados juntinhos / Num beco do Bairro Alto / De todas elas mentiste / E eu gastei por maus caminhos / Os meus sapatos de salto / Hoje vens para me propor / Casarmos na Madragoa / Como eu sempre te pedi / Não pode ser, meu amor / Já sabe meia Lisboa / Que eu não acredito em ti

Gato escaldado

Más de una vez prometiste / Llevarme cogida del brazo / A pasear por Alfama / Yo esperé, tú no viniste / Se quedó viejo y ajado / El vestido para estrenar / Innumerables veces juraste / Bailar conmigo en el baile / En las puerta de Mouraria / Y fui, pero nunca llegaste / Saben los flecos de mi chal / Cómo lloré aquel día / Infinitas veces sugeriste / Ir a oír fado juntos / A un callejón del Barrio Alto / Y todas ellas mentiste / Y yo gasté por malos caminos / Mis zapatos de tacón / Hoy vienes a proponerme / Casarnos en Madragoa / Como siempre te pedí / No puede ser, mi amor / Ya sabe media Lisboa / Que yo no confío en ti

Que Amor É Este?

Há quanto tempo te espero / Dá-me tu qualquer razão / Dizer que já não te quero / É mentira ou negação / Dizer que nunca te quero / É mentira ou negação / O amor que tenho por ti / Não tem sequer uma história / Nasceu e cresceu assim / Das raízes da memória / Ao sol, ao mar ou á terra / Ensina-me a quem pedir / Essa chave que me encerra / Muito antes de eu partir / És a chave que me encerra / E não me deixa partir / O meu segredo é eterno / Contra Deus e contra a lei / Sobre o céu e o inferno / Diz-me tu o que eu não sei / Sobre o céu e o inferno / Diz-me tudo o que não sei

¿Qué amor es este?

Hace cuánto tiempo te espero / Dame tú cualquier razón / Decir que ya no te quiero / Es mentira o negación / Decir que nunca te quiero / Es mentira o negación / El amor que tengo por ti / No tiene siquiera una historia / Nació y creció así / De las raíces de la memoria / Al sol, al mar o a la tierra / Enséñame a quién pedir / Esa llave que me encierra / Mucho antes de que yo parta / Eres la llave que me encierra / Y no me deja partir / Mi secreto es eterno / Contra Dios y contra la ley / Sobre el cielo y el infierno / Dime tú lo que no sé / Sobre el cielo y el infierno / Dime tú lo que no sé

Fogo Sem Fumo

Ando à procura de um fado / Que seja a voz que não tenho / Que cante tudo por mim / Meu coração maltratado / Se tivesses outro engenho / Eu não cantaria assim / Mas foi nas voltas da vida / Que descobri a razão / Na voz de um vento qualquer / E ao procurar a saída / Com a minh'alma na mão / Descobri que sou mulher / Seja qual for o desfecho / Desta viagem sem rumo / Agora não vou parar / E o fado que aqui te deixo / É o meu fogo sem fumo / Que eu só te dou a cantar

Fuego sin humo

Voy buscando un fado / Que sea la voz que no tengo / Que cante todo por mí / Mi corazón maltratado / Si tuvieses otro talento / Yo no cantaría así / pero fue en las vueltas de la vida / Que descubrí la razón / En la voz de un viento cualquiera / Y al buscar la salida / Con mi alma en la mano / Descubrí que soy mujer / Sea cual sea el desenlace / De este viaje sin rumbo / Ahora no voy a parar / Y el fado que aquí te dejo / Es mi fuego sin humo / Que sólo te doy al cantar

Ainda Mais Triste

Era tão branco o chão em que eu pisava / Era tão negro o céu que me cobria / Por mais triste que fosse o que eu contava / Ainda era mais triste o que eu escondia / Por mais longa que fosse a madrugada / Ainda era mais longo aquele dia / Por mais triste que eu fosse assim calada / Ainda era mais triste o que eu dizia / Era tão grande o perigo de naufrágio / Maior que todo o medo que eu sentia / Por mais triste que fosse o meu presságio / Ainda era mais triste o que eu sabia / Mais triste do que a morte era a tristeza / Da vida que me davam, que eu pedia / Mas ainda mais triste era a certeza / Que ser apenas triste era o que eu quería

Aún más triste

Era tan blanco el suelo que pisaba / Era tan negro el cielo que me cubría / Por más triste que fuese lo que yo contaba / Aún era más triste lo que escondía / Por más larga que fuese la madrugada / Aún era más largo aquel día / Por más triste que yo estuviese así callada / Aún era más triste lo que decía / Era tan grande el peligro de naufragio / Mayor que todo el miedo que sentía / Por más triste que fuese mi presagio / Aún era más triste lo que sabía / Más triste que la muerte era la tristeza / De la vida que me daban, que yo pedía / Pero aún era más triste la certeza / Que estar apenas triste era lo que yo quería

Uma Outra Nuvem

Deitada numa nuvem de não-ser / Deixei ao deus-dará os meus abraços / Afastando-me assim, sem o saber / Do ponto de chegada dos meus passos / Caminho é quanto fica da viagem / Paragem é caminho para trás / E agora só me resta por bagagem / O tanto mal que fez o tanto-faz / Julgava não ser nada, e era tudo / Pois tudo, em cada nada, acontece / P'ra além das sombras do tempo miúdo / A grande luz do tempo permanece / Sozinha, tenho agora de inventar / Essoutra nuvem de uma cor diferente / Em que eu, à força de aprender a amar / Aprenda tudo sobre toda a gente

Otra nube

Echada en una nube de no ser / Dejé a la ventura mis abrazos / Alejándome así, sin saberlo / Del punto de llegada de mis pasos / Camino es cuanto queda del viaje /Parada es camino hacia atrás / Y ahora sólo me queda como equipaje / El mal que produce la indiferencia / Creía no ser nada y lo era todo / Pues todo, en cada nada, sucede / Más allá de las sombras de un tiempo pequeño / La luz grande de un tiempo permanece / Sola, ahora tengo que inventar / Esa otra nube de un color diferente / En la que yo, a fuerza de aprender a amar / Lo aprenda todo sobre la gente

Apenas O Vento

Deu-me Deus tudo o que quis / Já nem sei de quanto fiz / Se foi Deus ou se fui eu / Deu-me alegrias e pranto / Mas esta voz com que canto / Foi o vento que me deu / Deu-me tudo, deu-me tanto / Mas esta voz com que canto / Foi o vento que me deu / Foi o rio e suas águas / Que me ensinou estas mágoas / A saudade, foi o mar / Mas meu canto, meu sustento / Foi o vento, foi com o vento / Que eu aprendi a cantar / Mas meu canto, meu sustento / Foi o vento, foi o vento / Que me ensinou a cantar / O vento passa por mim / Por isso é que eu canto assim / Mas, meu Deus, faça o que eu faça / Quer seja brisa ou levante / Que eu saiba, sempre que cante / Ser voz do vento que passa / Hei-de ser brisa e levante / Hei-de ser, sempre que cante, / Apenas o vento que passa

Apenas el viento

Dios me dio todo lo que quise / Ya ni sé de cuanto hice / Si fue Dios o si fui yo / Me dio alegría y llanto / Pero esta voz con que canto / Fue el viento quien me la dio / Me dio todo, me dio tanto / Pero esta voz con que canto / Fue el viento quien me la dio / Fue el río y sus aguas / Quien me enseñó estas amarguras / La saudade, fue el mar / Pero mi canto, mi sustento / Fue el viento, fue con el viento / Que yo aprendí a cantar / Pero mi canto, mi sustento / Fue el viento, fue el viento / Quien me enseñó a cantar / El viento pasa por mí / Es por eso que canto así / Pero, Dios mío, haga lo que haga / Sea brisa o levante / Que yo sepa, siempre que cante / Ser voz del viento que pasa / He de ser brisa y levante / He de ser, siempre que cante / Apenas viento que pasa

Contos De Fados

Tantas terras, tantas gentes / Tantas sortes, tantas vidas / Que parecem tão diferentes / E que afinal são parecidas / Sejam de hoje ou de ontem / Inventadas ou vividas / Por mais vidas que se contem / Sobram sempre tantas vidas / São contos, contando contos / Que vivemos, que sonhamos / A que se acrescentam pontos / De cada vez que os contamos / E se os contos são cantados / Se a rima for bem escolhida / Já não são contos, são fados / Já não são fados, são vida / Já não são contos, são fados / E se são fados, são vida

Cuentos de fados 

Tantas tierras, tantas gentes / Tantas suertes, tantas vidas / Que parecen tan distintas / Y al final son parecidas / Sean de hoy o de ayer / Inventadas o vividas / Por más vidas que se cuenten / Sobran siempre tantas vidas / Son cuentos, contando cuentos / Que vivimos, que soñamos / Al que se añaden detalles / Cada vez que los contamos / Y si los cuentos son cantados / Si la rima fuese bien escogida / Ya no son cuentos, son fados / Ya no son fados, son vida / Ya no son cuentos, son fados / Y si son fados, son vida

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